1001 Razões para Gostar de Portugal

Blogue (à volta) do Livro

8 de novembro de 2008

VASCO PULIDO VALENTE, outro colunista que aponta para as feridas

Uma questão de Estado
Vasco Pulido Valente, no Público hoje

O Governo nacionalizou o Banco Português de Negócios, depois de recusar um plano de "salvação" de Miguel Cadilhe, que previa um reforço de capitais - feito naturalmente pelo Estado com o dinheiro do contribuinte - de 600 milhões de euros. Como é público e notório, a história pouco exemplar do BPN vinha de longe. Mais do que isso: corriam rumores sobre irregularidades várias, que aparentemente não foram tomadas muito a sério, embora já em 2005 a Operação Furacão tivesse levantado suspeitas de grande gravidade.O Governo nacionalizou o Banco Português de Negócios, depois de recusar um plano de "salvação" de Miguel Cadilhe, que previa um reforço de capitais - feito naturalmente pelo Estado com o dinheiro do contribuinte - de 600 milhões de euros. Como é público e notório, a história pouco exemplar do BPN vinha de longe. Mais do que isso: corriam rumores sobre irregularidades várias, que aparentemente não foram tomadas muito a sério, embora já em 2005 a Operação Furacão tivesse levantado suspeitas de grande gravidade. O tempo correu. Em Março deste ano, segundo o Diário de Notícias, o Banco Central de Cabo Verde preveniu Vítor Constâncio que nem tudo era claro nas relações do Banco Insular, uma "filial" do BPN, e o próprio BPN. Em Julho, repetiu o aviso. E, finalmente, em Setembro, Vítor Constâncio entregou o caso ao Ministério Público.
Logo o Banco de Portugal, até ali passivo, anunciou "a descoberta" de "um vasto conjunto de operações de crédito clandestinas", de que só havia registo em dois computadores. Pior ainda, em Outubro, com certeza com conhecimento de causa, Cadilhe denunciou uma série de "crimes financeiros", presumivelmente cometidos por quem o precedera. O que não impediu a Caixa Geral de Depósitos de emprestar pela mesma altura ao BPN 200 milhões de euros, sem qualquer espécie de sobressalto. Dizem por aí que este "escândalo" é um "escândalo financeiro ímpar" em Portugal. Não é. É pura e simplesmente uma questão de regime. Porque um regime em que o BPN se criou e agiu em toda a liberdade não merece confiança alguma.

Primeiro, porque o Banco de Portugal, como se não lhe chegasse o fiasco do BCP, falhou completamente nas suas funções de fiscalização. E, segundo, porque entre a gente que, da fundação à "falência", ocupou altos cargos no BPN estavam figuras políticas da maior importância: José de Oliveira e Costa (secretário de Estado de Cavaco), Dias Loureiro (ministro de Cavaco), Daniel Sanches (ministro de Santana), Rui Machete, o inevitável Guilherme de Oliveira Martins e um genro de Aznar, ex-secretário do Partido Popular espanhol. Isto põe um problema essencial. Se a justiça portuguesa não desembaraça rapidamente a tremenda meada do BPN, se não apura rapidamente responsabilidades sem respeito ao estatuto e posição seja de quem for e se não julga e pune rapidamente os culpados, prova, proclama e fundamenta a corrupção do Estado. Existe uma diferença entre o que sucedeu no BPN e um assalto a uma ourivesaria.

Uma questão de Estado
Vasco Pulido Valente - 20081108
O Governo nacionalizou o Banco Português de Negócios, depois de recusar um plano de "salvação" de Miguel Cadilhe, que previa um reforço de capitais - feito naturalmente pelo Estado com o dinheiro do contribuinte - de 600 milhões de euros. Como é público e notório, a história pouco exemplar do BPN vinha de longe. Mais do que isso: corriam rumores sobre irregularidades várias, que aparentemente não foram tomadas muito a sério, embora já em 2005 a Operação Furacão tivesse levantado suspeitas de grande gravidade.O Governo nacionalizou o Banco Português de Negócios, depois de recusar um plano de "salvação" de Miguel Cadilhe, que previa um reforço de capitais - feito naturalmente pelo Estado com o dinheiro do contribuinte - de 600 milhões de euros. Como é público e notório, a história pouco exemplar do BPN vinha de longe. Mais do que isso: corriam rumores sobre irregularidades várias, que aparentemente não foram tomadas muito a sério, embora já em 2005 a Operação Furacão tivesse levantado suspeitas de grande gravidade. O tempo correu. Em Março deste ano, segundo o Diário de Notícias, o Banco Central de Cabo Verde preveniu Vítor Constâncio que nem tudo era claro nas relações do Banco Insular, uma "filial" do BPN, e o próprio BPN. Em Julho, repetiu o aviso. E, finalmente, em Setembro, Vítor Constâncio entregou o caso ao Ministério Público.
Logo o Banco de Portugal, até ali passivo, anunciou "a descoberta" de "um vasto conjunto de operações de crédito clandestinas", de que só havia registo em dois computadores. Pior ainda, em Outubro, com certeza com conhecimento de causa, Cadilhe denunciou uma série de "crimes financeiros", presumivelmente cometidos por quem o precedera. O que não impediu a Caixa Geral de Depósitos de emprestar pela mesma altura ao BPN 200 milhões de euros, sem qualquer espécie de sobressalto. Dizem por aí que este "escândalo" é um "escândalo financeiro ímpar" em Portugal. Não é. É pura e simplesmente uma questão de regime. Porque um regime em que o BPN se criou e agiu em toda a liberdade não merece confiança alguma.

Primeiro, porque o Banco de Portugal, como se não lhe chegasse o fiasco do BCP, falhou completamente nas suas funções de fiscalização. E, segundo, porque entre a gente que, da fundação à "falência", ocupou altos cargos no BPN estavam figuras políticas da maior importância: José de Oliveira e Costa (secretário de Estado de Cavaco), Dias Loureiro (ministro de Cavaco), Daniel Sanches (ministro de Santana), Rui Machete, o inevitável Guilherme de Oliveira Martins e um genro de Aznar, ex-secretário do Partido Popular espanhol. Isto põe um problema essencial. Se a justiça portuguesa não desembaraça rapidamente a tremenda meada do BPN, se não apura rapidamente responsabilidades sem respeito ao estatuto e posição seja de quem for e se não julga e pune rapidamente os culpados, prova, proclama e fundamenta a corrupção do Estado. Existe uma diferença entre o que sucedeu no BPN e um assalto a uma ourivesaria.

Os media esquecem. A blogosfera tem obrigação de avivar a memória.

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  • Publicado em Fevereiro de 2005 por TEXTO EDITORES
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