1001 Razões para Gostar de Portugal

Blogue (à volta) do Livro

1 de maio de 2007

JORGE LISTOPAD


Um homem de cultura, de mestiçagens, de criação.

"Listopad regressa com eficácia à encenação

MIQUEL-PEDRO QUADRIO

Estreia de um dramaturgo australiano desconhecido entre nós
Num momento em que o desemprego (ou sua ameaça sombria) desestabiliza a vida de muitos portugueses, a Companhia de Teatro de Almada propõe-nos uma leitura muitíssimo aguda e sensível dessa nova Medusa político-social, que, sorrateiramente, vai petrificando o ânimo daqueles que são forçados a encará-la.

A história dum pedreiro que perdeu o trabalho, da sua mulher e filha e de um amigo que teve igual sorte, chega-nos da Austrália, na escrita de Daniel Keene (n. 1955), dramaturgo inédito entre nós. A crítica internacional, principalmente a francesa - é em França que o dramaturgo tem sido mais representado e aclamado -, aponta-lhe a influência expressionista de Samuel Beckett.

Ora, Scissors, Paper, Rock (título original desta peça de 1998) - a única que conheço do autor - parece-me mais próxima dos ambientes vagos e sugestivos do realismo simbolista de Tchékhov. Jorge Listopad, que a dirige agora no Teatro Azul, situa-a, aliás, num espaço cénico em arena, estilhaçado em pequenas ilhas que invadem o anel onde se senta público. Esta interpelativa reorganização da Sala Estúdio obriga os espectadores a variarem o seu ponto de vista de acordo com a deslocação das cenas, insinuando-se subtilmente a fluidez duma sequência que se alimenta de pequenos flashes desgarrados e inconclusivos.

O pedreiro de José Wallenstein desloca-se com grande perícia entre a variada paleta de registos que exige o olhar fragmentário do dramaturgo. Domina com rigor os tempos de silêncio, os gestos descontrolados com que tenta reaver o passado seguro, o tom estrangulado nos frustrantes diálogos que mantém com a filha - adolescente orgulhosa do seu verniz escolar -, o pudor patético das preces diante da imagem da Virgem, que ele mesmo esculpiu.

Listopad imaginou adereços tão evidentes quanto difusos (restos de pedra, o arco gótico enquadrando um bloco de pedra em bruto - a imagem -, ferramentas cediças, uma caixa de areia pela antiga pedreira ou dois bancos altos por um bar). Esta liberdade realça a actuação dos quatro intérpretes, que melhor sublinham o desespero contido e a emergência do que neles resiste de humano (a mulher de Maria Arriaga é o contraponto ideal do desamparo masculino, parecendo que Listopad a moldou no fio da navalha emocional de Gena Rowlands).

Discreta e arredada de demagogias fáceis, a triste celebração onírica dos novos marginais encontra aqui uma belíssima concretização."

In DN, 30 de Abril de 2007
Foto DN (da peça)

1 Comments:

At domingo, maio 29, 2011, Anonymous Basic Blackjack said...

I know, how it is necessary to act...

 

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  • Publicado em Fevereiro de 2005 por TEXTO EDITORES
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